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Azul como Afirmação: identidade, território e dignidade na obra de Kika Carvalho

  • Foto do escritor: Adenilson Barcelos de Miranda
    Adenilson Barcelos de Miranda
  • 26 de mar.
  • 2 min de leitura
Kika Carvalho (1992). Sem título, 2021, acrílica sobre tela. Centro Cultural Fiesp recebe acervo do BID pela primeira vez na América Latina. Foto: Adenilson B. de Miranda.
Kika Carvalho (1992). Sem título, 2021, acrílica sobre tela. Centro Cultural Fiesp recebe acervo do BID pela primeira vez na América Latina. Foto: Adenilson B. de Miranda.

Nesta pintura, Kika Carvalho utiliza sua marca registrada: a monocromia azul para representar a pele da figura humana. Para a artista, o azul não é apenas uma escolha estética, mas uma subversão política. Ao retirar o tom marrom literal da pele negra e substituí-lo pelo azul, ela desloca o corpo do lugar comum do “exotismo” ou do sofrimento, elevando a figura a um estado de dignidade, serenidade e até certa divindade ou atemporalidade.

A composição também se destaca pelo contraste. A presença de um carro amarelo vibrante, que remete a um design clássico, a Brasília. O amarelo traz luz e solaridade, enquanto a figura central, apoiada no veículo com confiança, ancora a cena e estabelece equilíbrio visual.

A ambientação, com o calçadão de pedras portuguesas, a praia ao fundo e o porta-malas aberto sugere uma narrativa de cotidiano e lazer. Há, nessa cena, uma afirmação do direito à cidade e ao descanso. A personagem não ocupa um lugar de servidão; ao contrário, é protagonista de sua própria jornada, expressando estilo, autonomia e segurança.

Kika Carvalho, nascida em Vitória, Espírito Santo, em 1992, é uma das vozes mais potentes da arte contemporânea capixaba e brasileira. Sua trajetória artística teve início nas ruas, por meio do grafite, o que explica sua habilidade em transitar entre murais de grande escala e telas de galeria. Foi, inclusive, a primeira mulher a ganhar destaque na produção de murais em larga escala em sua cidade natal.

Sua produção tem como eixo central a representação negra. A artista busca tensionar e preencher lacunas históricas na história da arte, onde o corpo negro foi frequentemente invisibilizado ou retratado sob uma perspectiva colonial. Kika constrói uma relação própria com a cor, associando-a ao oceano que conecta a diáspora africana e ao céu, como metáfora de horizontes infinitos.

"A Exposição convida os visitantes a refletirem sobre a pluralidade". Julieta Maroni, curadora da Coleção de Arte BID.  Foto: Adenilson B. de Miranda.
"A Exposição convida os visitantes a refletirem sobre a pluralidade". Julieta Maroni, curadora da Coleção de Arte BID. Foto: Adenilson B. de Miranda.

A presença de Kika Carvalho na exposição do acervo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), realizada no Centro Cultural Fiesp, é significativa. A instituição costuma reunir obras que dialogam com o desenvolvimento social e a identidade cultural das Américas, e a inclusão de uma artista brasileira contemporânea reafirma a relevância da produção atual no cenário internacional.

Ao lado de artistas históricos de outros 26 países, sua obra evidencia como a arte brasileira contemporânea se insere em debates globais sobre identidade, território e pertencimento. A exposição, nesse sentido, constitui uma oportunidade rara de observar como a arte pode funcionar como ponte entre questões econômicas e o tecido social e sensível de um povo.

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