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Do projeto piloto ao SUS Digital: a trajetória da telessaúde na UERJ

  • Foto do escritor: Adenilson Barcelos de Miranda
    Adenilson Barcelos de Miranda
  • 8 de abr.
  • 3 min de leitura

A consolidação da telessaúde como política pública estruturante do Sistema Único de Saúde (SUS) não ocorreu de forma abrupta. Trata-se de um processo histórico, incremental e profundamente ancorado em experiências institucionais que, ao longo do tempo, transformaram iniciativas experimentais em soluções escaláveis. Um exemplo emblemático dessa trajetória é apresentado por Alexandra Monteiro, Edson Diniz, Munique Santos e João Neves no capítulo Do Projeto Piloto de Telessaúde ao SUS Digital: a trajetória da UERJ, publicado na obra Telessaúde no SUS: avanços e desafios para o século XXI (2025).


O texto reconstrói o percurso da telessaúde na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), evidenciando como um projeto inicialmente piloto se consolidou como componente estratégico no contexto do SUS Digital. Ao abordar o período que se estende das primeiras iniciativas nos anos 2000 até a consolidação entre 2020 e 2025, os autores demonstram que a experiência da UERJ ultrapassa o campo experimental, inserindo-se no movimento mais amplo de transformação digital da saúde no Brasil.

Desde suas origens, a iniciativa da UERJ esteve fortemente articulada à Atenção Primária à Saúde (APS), com destaque para a construção de fluxos de teleconsultoria e suporte clínico. Ao longo do tempo, esses processos foram ampliados e integrados a sistemas digitais mais complexos, permitindo não apenas o acompanhamento clínico, mas também o desenvolvimento de ações educativas e de capacitação profissional. Esse movimento evidencia um aspecto central da telessaúde: sua capacidade de integrar cuidado, educação e gestão em uma mesma infraestrutura tecnológica.

Outro elemento fundamental da trajetória descrita é a articulação institucional. A expansão da telessaúde na UERJ não ocorreu de forma isolada, mas por meio de parcerias com diferentes atores, incluindo secretarias de saúde e outras instituições públicas e privadas. Essas colaborações foram decisivas para a ampliação regional das ações e para a adaptação dos modelos inicialmente testados em escala piloto para contextos mais amplos, compatíveis com as demandas do SUS.

Nesse processo, a capacitação contínua de profissionais de saúde emerge como eixo estruturante. A formação em saúde digital, associada à prática assistencial mediada por tecnologias, contribuiu para a consolidação de equipes multiprofissionais aptas a operar em novos arranjos de cuidado.

A experiência da UERJ permite identificar quatro dimensões centrais. A primeira refere-se à integração entre ensino, pesquisa e extensão, que sustenta a produção de conhecimento aplicado e sua disseminação em redes de atenção. A segunda diz respeito à inovação, expressa na implementação de modelos de teleconsulta, telediagnóstico e protocolos de atendimento remoto. A terceira envolve as tensões institucionais, especialmente no que se refere à coordenação entre diferentes níveis de gestão, aos desafios de conectividade e à interoperabilidade de sistemas. Por fim, a quarta dimensão é a própria transformação digital, entendida como processo de reorganização dos fluxos assistenciais e informacionais no âmbito do SUS.

As categorias temáticas que emergem dessa análise reforçam a relevância da telessaúde universitária aplicada ao SUS, a importância da escalabilidade de projetos piloto, a integração com o SUS Digital, a formação de profissionais e a inovação tecnológica em saúde. Esses elementos não apenas caracterizam a experiência da UERJ, mas também oferecem pistas importantes para a replicação em outros contextos regionais.

Ao produzirem conhecimento, desenvolverem tecnologias e testarem modelos assistenciais, essas instituições contribuem diretamente para a formulação e a institucionalização de políticas públicas. No caso da telessaúde, essa contribuição se revela especialmente relevante para a ampliação do acesso, a qualificação do cuidado e a redução das desigualdades em saúde.

A trajetória da UERJ, portanto, não é apenas um caso específico, mas um exemplo paradigmático. Ela demonstra como iniciativas locais, quando sustentadas por articulação institucional, investimento em formação e capacidade de inovação, podem ser escaladas e incorporadas às políticas nacionais. Nesse sentido, a passagem do projeto piloto ao SUS Digital não representa apenas uma mudança de escala, mas uma mudança de paradigma, na qual a tecnologia deixa de ser acessória e passa a ocupar posição central na organização do cuidado em saúde.



MONTEIRO, Alexandra; DINIZ, Edson; SANTOS, Munique; NEVES, João. Do Projeto Piloto de Telessaúde ao SUS Digital: a trajetória da UERJ. In: SANTOS, Alaneir de Fátima dos et al. (Orgs.). Telessaúde no SUS: avanços e desafios para o século XXI. 1ª ed. Belo Horizonte: Faculdade de Medicina/UFMG, 2025. p. 71-80. Disponível em: https://abtms.org.br/wp-content/uploads/2025/10/telessaude_final.pdf.

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