Telessaúde e a transformação digital do SUS
- Adenilson Barcelos de Miranda
- 11 de mar.
- 3 min de leitura

A consolidação da telessaúde como política pública no Brasil tem sido um dos processos mais relevantes da transformação digital do sistema público de saúde. Um texto recente publicado em 2025 pelas pesquisadoras Ana Estela Haddad e Alaneir de Fátima dos Santos analisa o Projeto Nacional de Telessaúde e as estratégias adotadas para ampliar e universalizar essas ações no país. Ambas as autoras possuem trajetória destacada na formulação e implementação de políticas públicas voltadas à telessaúde, à saúde digital e à gestão em saúde, oferecendo uma análise baseada tanto na experiência institucional quanto na reflexão acadêmica.
A construção de uma política nacional de telessaúde
O texto situa o desenvolvimento da telessaúde no Brasil entre as décadas de 2000 e 2020, com especial atenção aos avanços observados no início da década de 2020. Nesse período consolidou-se o Programa Nacional Telessaúde Brasil Redes como uma das principais iniciativas voltadas à incorporação de tecnologias digitais no âmbito do Sistema Único de Saúde.
O programa foi estruturado com forte articulação com a Atenção Primária à Saúde, buscando ampliar a capacidade de resolução das equipes de saúde, apoiar a tomada de decisão clínica e promover processos contínuos de educação permanente para profissionais que atuam no sistema público.
Estratégias para universalizar o acesso
Ao analisar o Projeto Nacional de Telessaúde, as autoras descrevem as principais estratégias adotadas para ampliar o acesso às ações de telessaúde em todo o território brasileiro. Entre elas destacam-se a integração entre atenção primária, vigilância em saúde e educação permanente, além da construção de protocolos clínicos, fluxos operacionais e indicadores de qualidade.
O texto também apresenta experiências de implementação em diferentes regiões do país, revelando como as iniciativas de telessaúde precisam dialogar com realidades territoriais diversas. Em muitos casos, a expansão dessas ações depende da adaptação de tecnologias e processos de trabalho às condições locais.
Desafios estruturais e institucionais
Apesar dos avanços observados, o processo de implementação da telessaúde enfrenta desafios importantes. Entre eles destacam-se as limitações de conectividade em regiões remotas, as desigualdades regionais no acesso à infraestrutura tecnológica e as dificuldades de coordenação entre os diferentes níveis de governo.
Essas tensões revelam que a expansão da telessaúde não depende apenas da disponibilidade de tecnologia, mas também da construção de arranjos institucionais capazes de articular União, estados e municípios em torno de objetivos comuns.
Inovação, formação e produção de conhecimento
A análise apresentada pelas autoras permite identificar um conjunto de eixos estruturantes para compreender o desenvolvimento da telessaúde no Brasil. Um deles é a articulação entre ensino, pesquisa e extensão, evidenciada na formação de profissionais para atuar em saúde digital, na produção de conhecimento aplicado e na avaliação contínua das iniciativas implementadas.
Outro eixo refere-se à inovação tecnológica, expressa no desenvolvimento de modelos integrados de teleconsultoria, telediagnóstico e teleducação, além da criação de plataformas digitais capazes de operar em larga escala dentro do sistema público de saúde.
Telessaúde como eixo da transformação digital
O texto também destaca que a telessaúde deve ser compreendida como parte de um processo mais amplo de transformação digital do sistema de saúde. Nesse contexto, as tecnologias digitais passam a desempenhar um papel fundamental na ampliação do acesso aos serviços, na melhoria da coordenação do cuidado e na otimização dos fluxos clínicos e administrativos.
A universalização dessas iniciativas exige a construção de protocolos assistenciais padronizados, indicadores de qualidade e estratégias contínuas de capacitação profissional.
Um marco para o futuro do SUS
A análise realizada por Haddad e Santos indica que o Projeto Nacional de Telessaúde representa um marco importante na organização das políticas de saúde digital no Brasil. Ao articular tecnologia, formação profissional e modelos assistenciais inovadores, a iniciativa contribui para fortalecer a Atenção Primária e integrar os diferentes níveis de atenção no sistema público.
Do ponto de vista histórico e institucional, o texto demonstra que políticas digitais bem estruturadas têm potencial para reduzir desigualdades regionais, otimizar recursos públicos e ampliar o acesso da população aos serviços de saúde. Nesse sentido, a telessaúde se consolida cada vez mais como um dos pilares da transformação digital do SUS.
HADDAD, Ana Estela; SANTOS, Alaneir de Fátima dos. Projeto nacional de telessaúde: rumo à universalização de ações no âmbito do SUS. In: SANTOS, Alaneir de Fátima dos et al. (Orgs.). Telessaúde no SUS: avanços e desafios para o século XXI. 1ª ed. Belo Horizonte: Faculdade de Medicina/UFMG, 2025. p. 41-70. Disponível em: https://abtms.org.br/wp-content/uploads/2025/10/telessaude_final.pdf.


