Deusdet e a Psicologia Social: Um Legado de Luta e Humanização em Goiás
- Adenilson Barcelos de Miranda
- 11 de mai.
- 3 min de leitura

Com a Palavra, os Antimanicomiais, em sua 55ª edição, realizou um encontro de reflexão crítica, memória e mobilização política em torno da saúde mental brasileira, trazendo ao centro do debate a trajetória intelectual e humana de Deusdet do Carmo Martins e suas contribuições para a psicologia social e para as lutas antimanicomiais no Brasil.
Nesta segunda-feira, 11 de maio de 2026, às 20h, a psicóloga Karen Alcantara foi entrevistada por Eduardo Sugizaki em uma conversa que atravessa memória, militância, produção acadêmica e compromisso ético com os sujeitos historicamente marginalizados pelas estruturas psiquiátricas e sociais.
O diálogo abordou inicialmente a atuação de Deusdet do Carmo Martins no campo da psicologia social, destacando sua contribuição intelectual para a construção de perspectivas críticas comprometidas com a emancipação humana, a escuta coletiva e a transformação social. Em seguida, foi realizada a chamada para a Semana da Luta Antimanicomial de 2026, reafirmando a importância histórica e contemporânea do movimento antimanicomial na defesa do cuidado em liberdade, da dignidade humana e do fortalecimento das políticas públicas de saúde mental no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).
A conversa também celebrou a conclusão do livro Deusdet-e-camaradas, já finalizado pela Editora da Universidade Estadual de Goiás, obra que reúne reflexões, memórias e interlocuções em torno da trajetória de Deusdet e de seus companheiros de caminhada intelectual e política. O livro representa não apenas um registro histórico, mas também um testemunho coletivo das experiências de resistência, produção crítica do conhecimento e compromisso social construídos ao longo de décadas.
A psicologia, muitas vezes, é vista dentro das quatro paredes de um consultório, isolada da realidade pulsante das ruas. No entanto, a trajetória de Deusted, figura central na história da saúde mental em Goiás, nos convida a romper com essa visão limitada. Em um encontro recente promovido pelo coletivo La Folie, mergulhamos no impacto vital dessa ativista que transformou a vulnerabilidade em potência política.

O Rompimento com Modelos Importados
De acordo com a piscóloga Karen Alcantara, durante décadas, a psicologia brasileira bebeu de fontes europeias e norte-americanas que nem sempre conversavam com as dores da nossa terra. Deusdet trilhou o caminho inverso. Sua atuação foi pautada na Psicologia Social Latino-americana, que busca entender o indivíduo dentro de seu contexto histórico e social.
Em Goiás, ela não apenas estudou a teoria; ela viveu a prática. Deusdet foi uma peça fundamental no enfrentamento à lógica manicomial, denunciando violações de direitos humanos e mobilizando movimentos sociais para garantir que o "viver em liberdade" fosse um eixo inegociável da reforma psiquiátrica.
A Clínica do Encontro: Além do Gabinete
Um dos pontos mais emocionantes de sua trajetória foi o exercício da clínica peripatética (ou clínica de rua). Deusdet não esperava o sofrimento bater à sua porta; ela ia até onde a vida acontecia. O cuidado era realizado nas ruas, nos bairros e nos espaços de convivência dos usuários. Como descreveu o historiador Matraga, ela exercia uma liderança que não impunha ordens, mas provocava reações coletivas através do acolhimento e da clareza dos fatos. Para Deusdet, o "louco" deixava de ser um objeto de intervenção para se tornar um sujeito de direitos.
Um Espaço de Afetividade e Resistência
O legado de Deusdet segue vivo em iniciativas como o Cuca Fresca, um serviço que nasceu da articulação política e da sensibilidade técnica para atender a população. Sua história nos ensina que a psicologia deve ser, invariavelmente, social, política e humana.
Como bem pontuado por Eloísa, o ativismo de Deusdet foi uma práxis que transformou a exclusão em cidadania. Ela enfrentou os "empresários da loucura" e os interesses econômicos que lucravam com o isolamento, provando que a verdadeira cura reside na inclusão e na liberdade.
Um Convite à Sensibilidade
Encerrar um texto sobre Deusdet é, na verdade, abrir um convite. Que possamos, como profissionais e cidadãos, ser sensíveis para "enxergar as teias invisíveis das nossas conexões". A história de Deusdet não é apenas memória; é um guia para uma psicologia que não se cala diante das injustiças e que caminha sempre em direção à liberdade.
Assista a entrevista:
