Telemedicina: o início da jornada
- Adenilson Barcelos de Miranda
- 3 de fev.
- 3 min de leitura
A fase heroica da telemedicina no Brasil: memória, pioneirismo e institucionalização

A história da telemedicina no Brasil não começa com políticas públicas consolidadas ou com plataformas digitais sofisticadas. Ela nasce de experimentações, apostas institucionais e do trabalho persistente de pesquisadores que atuaram em um cenário de incertezas tecnológicas e normativas.
É nesse contexto que se insere o texto de György Miklós Böhm, médico e pesquisador pioneiro da telemedicina brasileira, produzido em 2023, que revisita a gênese da área a partir de sua própria trajetória e experiência.
Trata-se de um relato histórico-analítico com forte dimensão de memória, no qual o autor reconstrói os caminhos iniciais da telemedicina no país, desde iniciativas experimentais até os primeiros movimentos de estruturação institucional que, anos mais tarde, dariam base às políticas públicas de telessaúde e saúde digital.
A “fase heroica” da telemedicina brasileira
O texto concentra-se no período que Böhm denomina de “fase heroica” da telemedicina no Brasil, compreendendo os anos 1990 e o início dos anos 2000. Esse momento foi marcado por iniciativas pioneiras de comunicação remota em saúde, desenvolvidas majoritariamente no interior de universidades e hospitais universitários, que atuaram como verdadeiros laboratórios de inovação.
Antes da consolidação normativa e da existência de programas nacionais estruturados, esses espaços acadêmicos funcionaram como ambientes de validação tecnológica e de capacitação profissional. A articulação entre universidades e hospitais permitiu testar soluções, formar quadros especializados e criar protocolos clínicos em um contexto de grandes limitações de infraestrutura e conectividade.
Experimentações, tecnologias e protocolos clínicos
Böhm descreve a implementação dos primeiros projetos de telemedicina em hospitais universitários, inicialmente apoiados em tecnologias analógicas e, posteriormente, em soluções digitais emergentes. Áreas como radiologia e cardiologia foram centrais nesses experimentos, sobretudo no desenvolvimento de práticas de telediagnóstico.
Um dos aspectos mais relevantes do relato é a construção gradual de protocolos clínicos capazes de conectar centros urbanos de alta complexidade a regiões remotas e desassistidas. Esses protocolos não apenas garantiam segurança clínica, mas também criavam as bases institucionais que permitiriam, no futuro, o alinhamento dessas práticas às diretrizes do Ministério da Saúde.
Universidade, inovação e tensões institucionais
Do ponto de vista historiográfico, o texto evidencia o papel central da chamada tríade universitária. A pesquisa foi responsável por validar tecnologias e métodos, enquanto a extensão universitária deu suporte direto a áreas isoladas, ampliando o acesso a serviços especializados.
Esse processo, no entanto, não ocorreu sem conflitos. Böhm destaca as tensões institucionais enfrentadas, especialmente a resistência de setores tradicionais da medicina e as severas limitações técnicas da época. Ainda assim, a inovação experimental atuou como força indutora de mudanças, demonstrando que a transformação institucional muitas vezes nasce à margem das estruturas consolidadas.
Categorias temáticas emergentes
Da leitura do texto, é possível extrair algumas categorias temáticas centrais que ajudam a compreender a trajetória inicial da telemedicina no Brasil: a experimentação tecnológica em saúde; a formação e capacitação profissional; o desenvolvimento de protocolos clínicos remotos; a integração entre universidade e hospital; o pioneirismo institucional; e a constituição das bases da política pública de telessaúde.
Esses elementos revelam um processo histórico no qual prática, conhecimento e institucionalização caminharam de forma interdependente.
Antecipações acadêmicas e políticas públicas
Um dos argumentos mais consistentes do texto é a demonstração de que os núcleos acadêmicos anteciparam práticas que o Sistema Único de Saúde incorporaria apenas anos depois. A experiência acumulada nesses projetos pioneiros fundamentou tecnicamente a criação do Programa Telessaúde Brasil Redes, mostrando que a institucionalização não foi um ponto de partida, mas um desdobramento de práticas já consolidadas no campo acadêmico.
A unidade entre inovação prática e política pública foi construída por meio de tensões produtivas, negociações institucionais e aprendizado coletivo.
Uma fonte histórica sobre a gênese da Saúde Digital
Do ponto de vista historiográfico, o texto de György Miklós Böhm constitui uma fonte documental de alto valor, justamente por registrar o processo de experimentação científica e institucional “por dentro”. Ele confirma que a telemedicina brasileira não foi uma simples importação passiva de tecnologias estrangeiras, mas um fenômeno social, científico e político gestado em ambientes acadêmicos nacionais.
Nesse sentido, o relato permite compreender a telemedicina como embrião da Saúde Digital contemporânea no Brasil, revelando como inovação, memória institucional e políticas públicas se entrelaçam na construção histórica do campo.
BÖHM, György Miklós. Telemedicina: o início da jornada. In: WEN, Chao Lung; CHAO, Maíra Lie (Orgs.). Telemedicina e Telessaúde: 20 anos da fase heroica ao momento estruturante para Medicina e Saúde Conectada – a linha do tempo da Associação Brasileira de Telemedicina e Telessaúde (ABTms). 1. ed. Santos, SP: Ed. dos Autores, 2023. p. 18-29. Disponível em: https://abtms.org.br/wp-content/uploads/2025/09/Telemedicina-e-Telessau%CC%81de-20-anos-da-fase-heroica-ao-momento-estruturante-para-Medicina-e-Sau%CC%81de-Co.pdf.
