top of page

A historiografia do século XX em perspectiva de longa duração: uma leitura de Carlos Aguirre Rojas

  • Foto do escritor: Adenilson Barcelos de Miranda
    Adenilson Barcelos de Miranda
  • 7 de abr.
  • 3 min de leitura

O historiador Carlos Aguirre Rojas propõe uma interpretação da historiografia do século XX a partir da perspectiva da longa duração, inspirada em Fernand Braudel. Ele identifica quatro grandes momentos na evolução dos estudos históricos entre 1848 e os anos 1990, defendendo que os ciclos históricos não respeitam as divisões cronológicas convencionais (como 1900 ou 1945).


O primeiro momento (1848-1870) é o da ruptura fundacional, marcado pelo surgimento do marxismo, que Aguirre considera o verdadeiro início da ciência histórica moderna. O marxismo teria aberto o “continente História” no campo científico, influenciando decisivamente correntes posteriores, mesmo aquelas não explicitamente marxistas.

O segundo momento (1870-1929) corresponde à primeira hegemonia historiográfica, exercida pelo mundo germanoparlante. Trata-se da chamada historiografia positivista ou rankeana, centrada no documento escrito, na narrativa política e diplomática, e na erudição. Apesar de suas limitações, essa corrente trouxe contribuições importantes, como a crítica documental e o trabalho com fontes.

O terceiro momento (1929-1968) é marcado pela ascensão da Escola dos Annales, da França, que se torna a nova hegemonia. Em oposição ao positivismo alemão, os Annales propõem uma história social, interpretativa, baseada em múltiplas fontes (inclusive não escritas), atenta às mentalidades, às estruturas econômicas e aos processos de longa duração.

O quarto momento (1968 até a data do texto, final dos anos 1990) é caracterizado pelo fim das hegemonias nacionais e pela emergência de um policentrismo historiográfico. Não há mais uma escola ou país dominante, mas sim uma diversidade de abordagens igualmente relevantes: microstoria italiana, historiografia socialista britânica, história regional latino-americana, psicohistória, outras.

Aguirre conclui que essa fragmentação reflete uma transformação mais ampla na sociedade contemporânea, com o fim das centralidades (econômicas, políticas, sociais) e a entrada em uma possível “fase de bifurcação” civilizatória.

No caso mexicano, ele observa que as inovações historiográficas europeias chegaram tardiamente, geralmente quando já estavam em declínio no continente de origem. Por fim, defende que os historiadores mexicanos devem assumir um papel ativo no debate global, em vez de apenas receber influências.


Análise

O texto de Carlos Aguirre Rojas é uma contribuição ambiciosa e provocadora para a compreensão da historiografia contemporânea. Sua principal virtude é romper com periodizações convencionais (baseadas em datas como 1900 ou 1945) e propor uma leitura estrutural, influenciada pelo próprio método dos Annales. A ênfase no marxismo como marco fundador, e não apenas como uma corrente entre outras, confere ao autor uma posição original no debate historiográfico.


No entanto, a análise apresenta pontos que merecem atenção e reflexão:

  • Primeiro, a ideia de que o marxismo inaugurou a “ciência da história” é discutível, pois ignora tradições anteriores (como a Escola Metódica alemã e francesa) que também buscavam rigor científico;

  • Segundo, a caracterização do positivismo rankeano como monolítico e limitado a uma única fonte escrita é algo caricatural, ainda que didaticamente útil;

  • Terceiro, ao declarar o fim das hegemonias após 1968, Aguirre talvez subestime a persistente influência da academia anglo-americana (especialmente dos Estados Unidos) na produção historiográfica global, inclusive na América Latina;

  • Por fim, a reflexão sobre a recepção tardia das inovações europeias no México é pertinente e ainda atual. O autor alerta contra uma postura “colonial” que aguarda passivamente o fim de cada ciclo para então incorporar suas ideias. Essa crítica mantém sua força nos dias de hoje, quando o debate sobre a descentralização do conhecimento histórico continua em aberto.


Por fim, o texto é uma síntese didática e instigante, mas que deve ser lida com espírito crítico, especialmente em suas afirmações mais categóricas sobre hegemonia e ruptura.


Apresentação: Adenilson Barcelos de Miranda.

Professora: Renata Cristina Sousa Nascimento.

Programa de Pós-Graduação em História.

Linha de Pesquisa: Poder e Representações.

Disciplina: História e Narrativa.

Aula: 10/04/2026.



Referência:

AGUIRRE ROJAS, Carlos Antonio. Tese sobre o itinerário da historiografia do século XX: uma visão numa perspectiva de longa duração. In: MALERBA, Jurandir; AGUIRRE ROJAS, Carlos Antonio (orgs.). Historiografia contemporânea em perspectiva crítica. Bauru: EDUSC, 2007. p. 12-29. Disponível em: https://dokumen.pub/historiografia-contemporanea-em-perspectiva-critica-1nbsped-9788574603353.html

bottom of page