top of page

Experiências de Saúde Digital no Brasil: quando os territórios produzem inovação

  • Foto do escritor: Adenilson Barcelos de Miranda
    Adenilson Barcelos de Miranda
  • 28 de fev.
  • 4 min de leitura

O prefácio escrito por Lyane Ramalho para o livro Experiências de Saúde Digital no Brasil: um olhar para a informática em saúde, organizado por Janaína Luana Rodrigues da Silva Valentim e colaboradores, cumpre um papel que vai muito além de uma simples apresentação editorial.

O texto funciona como um marco interpretativo para compreender o campo da Saúde Digital no Brasil, articulando memória institucional, análise política e valorização das experiências concretas desenvolvidas no interior do Sistema Único de Saúde (SUS).


Ao introduzir a obra, Ramalho estabelece uma leitura crítica e contextualizada do processo de transformação digital em curso no sistema de saúde brasileiro. Seu prefácio posiciona o livro como um registro qualificado de práticas, saberes e inovações produzidas por universidades públicas, serviços de saúde e equipes técnicas que atuam diretamente nos territórios.

Mais do que apresentar os capítulos, o texto cria uma narrativa histórica sobre a Saúde Digital, conectando experiências locais ao movimento mais amplo de institucionalização das tecnologias digitais nas políticas públicas de saúde.


Saúde Digital no Brasil após a pandemia

O prefácio situa o livro em um momento específico da história recente da saúde pública brasileira: o período posterior à pandemia de COVID-19. Durante a crise sanitária global, diversas soluções digitais, antes consideradas periféricas, tornaram-se centrais para garantir continuidade do cuidado, gestão de informações e comunicação entre profissionais de saúde.

Esse contexto acelerou processos que já estavam em curso no país, como a consolidação da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), a expansão do e-SUS APS e o fortalecimento da estratégia conhecida como SUS Digital. Tais iniciativas ampliaram a densidade normativa, tecnológica e estratégica da Saúde Digital como política pública nacional.

Nesse cenário, o prefácio destaca o papel crescente das universidades públicas brasileiras, especialmente aquelas vinculadas a núcleos de telessaúde, grupos de informática em saúde e laboratórios de inovação. Esses espaços passam a atuar como mediadores entre políticas nacionais, serviços de saúde e demandas territoriais.

Assim, ensino, pesquisa e extensão aparecem como dimensões inseparáveis na consolidação da Saúde Digital, articulando produção de conhecimento, formação profissional e intervenção prática no sistema de saúde.


Um mosaico de experiências do SUS

Ramalho apresenta o livro como um verdadeiro mosaico de experiências concretas de informatização, inovação tecnológica e reorganização dos processos de trabalho em saúde. Os capítulos reúnem iniciativas desenvolvidas em diferentes regiões do país, revelando a diversidade de estratégias utilizadas para integrar tecnologia, gestão e cuidado.

Contudo, a autora chama atenção para um ponto fundamental: essas experiências não devem ser interpretadas apenas como relatos técnicos isolados ou estudos de caso pontuais. Elas fazem parte de um movimento mais amplo de transformação digital do SUS, historicamente situado e politicamente disputado.

Nesse sentido, o prefácio valoriza as experiências municipais, regionais e institucionais como fontes legítimas de conhecimento, capazes de produzir inovação a partir das necessidades concretas dos territórios. Essa perspectiva desafia modelos excessivamente centralizados ou prescritivos de implementação tecnológica, reconhecendo que muitas soluções emergem da criatividade e da prática cotidiana dos trabalhadores do sistema de saúde.

Outro aspecto destacado é o caráter interdisciplinar da Saúde Digital. O campo articula diferentes áreas, informática em saúde, gestão, clínica, vigilância, educação e participação social, demonstrando que a transformação digital não se limita à introdução de novas ferramentas tecnológicas, mas envolve mudanças profundas na organização do trabalho e na produção do cuidado.


Universidade pública, inovação e produção de conhecimento

Um dos eixos centrais do prefácio é a reafirmação do papel da universidade pública na construção da Saúde Digital brasileira. Ramalho argumenta que esses espaços se tornaram ambientes privilegiados para o desenvolvimento de conhecimento aplicado, formação de profissionais especializados e criação de soluções tecnológicas orientadas às demandas reais do SUS.

Nesse contexto, a pesquisa aparece diretamente vinculada à prática assistencial e à gestão do sistema de saúde. Ao mesmo tempo, a extensão universitária materializa a interlocução entre universidade, serviços de saúde, gestores e comunidades, fortalecendo a circulação de saberes entre diferentes atores institucionais.

O resultado é a construção de um campo de inovação no qual experiências inicialmente experimentais podem ser testadas, avaliadas e, posteriormente, incorporadas às políticas públicas.


Inovação como processo organizacional e institucional

Outro ponto relevante enfatizado no texto é que a inovação em Saúde Digital não se resume à introdução de novas tecnologias. Ela envolve também rearranjos organizacionais, redefinição de fluxos de trabalho e construção de novas racionalidades de gestão e cuidado.

Assim, a transformação digital do SUS é apresentada como um processo complexo, no qual tecnologias, instituições e práticas sociais se transformam simultaneamente.

O prefácio reconhece ainda, ainda que de forma indireta, alguns desafios estruturais enfrentados por essas iniciativas. Entre eles estão a escalabilidade das experiências locais, sua sustentabilidade ao longo do tempo e a necessidade de institucionalização dentro das normas e diretrizes da política nacional de saúde.

Essas tensões revelam a dinâmica entre criatividade local e regulação estatal, característica central dos processos de inovação em sistemas públicos de saúde.


A transformação digital como processo histórico

Ao final, o texto sugere que a Saúde Digital deve ser compreendida como um processo histórico cumulativo e permanentemente inacabado. A transformação digital do SUS não ocorre de maneira linear nem homogênea. Ela resulta de múltiplas experiências, experimentações e disputas institucionais que se desenvolvem em diferentes escalas do sistema de saúde.

Nesse sentido, o prefácio desempenha também uma função historiográfica. Ao selecionar e valorizar determinadas experiências apresentadas no livro, o texto contribui para a construção de uma memória recente da transformação digital do SUS.

Essa narrativa evidencia que o desenvolvimento da Saúde Digital no Brasil não é resultado exclusivo da incorporação de tecnologias. Trata-se de um fenômeno situado na interseção entre ciência, política pública e práticas sociais, no qual universidades públicas, serviços de saúde e trabalhadores do SUS desempenham papéis decisivos.

A partir dessa perspectiva, a transformação digital aparece não apenas como um processo tecnológico, mas como uma mudança institucional, epistemológica e territorial na forma de produzir saúde pública no Brasil.



RAMALHO, Lyane. Prefácio. In: VALENTIM, Janaína Luana Rodrigues da Silva et al. (orgs.). Experiências de Saúde Digital no Brasil: um olhar para a informática em saúde. Natal: Sedis-UFRN, 2024. p. 10. Disponível em: https://repositorio.ufrn.br/handle/123456789/62884. Acesso em: 28 dez. 2025.

bottom of page