Metapresencialidade e o futuro da telessaúde no SUS
- Adenilson Barcelos de Miranda
- 22 de fev.
- 4 min de leitura

A telessaúde brasileira alcançou, ao longo das primeiras décadas do século XXI, um estágio de maturidade que permite não apenas avaliar suas experiências, mas também refletir sobre suas bases conceituais.
É nesse contexto que se insere o texto “Bases conceituais da telessaúde: metapresencialidade no cuidado em saúde”, escrito por Naomar de Almeida Filho e publicado na obra Telessaúde no SUS: avanços e desafios para o século XXI, organizada por Alaneir de Fátima dos Santos e colaboradores.
Mais do que um prefácio tradicional, o texto assume a forma de um ensaio analítico que propõe fundamentos teóricos para compreender a transformação digital do cuidado em saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). A obra integra o momento de reflexão sobre cerca de 25 anos de experiências em telessaúde no país e evidencia o amadurecimento institucional e conceitual do campo.
A telessaúde no contexto do SUS Digital
O texto situa a telessaúde no cenário contemporâneo de consolidação das políticas públicas de saúde digital no Brasil. Após um longo percurso iniciado com experiências pioneiras e projetos de caráter experimental, a telessaúde passa a ser incorporada como componente estruturante das políticas nacionais de saúde.
Nesse sentido, Almeida Filho interpreta a telessaúde como parte integrante da estratégia de transformação digital do SUS, objeto do Programa SUS Digital. Essa política representa um movimento de superação da histórica fragmentação dos serviços de saúde brasileiros, propondo uma articulação mais integrada entre territórios, profissionais e níveis de atenção.
A ampliação das redes de conectividade, a consolidação de plataformas digitais e a produção de dados em larga escala tornam possível uma coordenação assistencial que ultrapassa barreiras geográficas. Assim, a telessaúde deixa de ser apenas um recurso tecnológico pontual para se tornar um instrumento de integração nacional do sistema de saúde.
Metapresencialidade: um novo conceito para o cuidado em saúde
A principal contribuição teórica do texto é a formulação do conceito de metapresencialidade. Para Almeida Filho, a mediação tecnológica não deve ser interpretada como uma substituição da presença física entre profissionais e usuários do sistema de saúde. Ao contrário, ela constitui uma expansão da presença clínica.
A metapresencialidade pode ser compreendida como uma nova ontologia do cuidado em saúde, na qual as tecnologias digitais permitem ampliar a capacidade de interação, acompanhamento e cooperação entre profissionais e pacientes. Nesse paradigma, o cuidado deixa de depender exclusivamente da proximidade física e passa a ocorrer em redes mediadas por plataformas digitais, sistemas interoperáveis e ambientes colaborativos.
Esse conceito permite compreender a telessaúde não apenas como ferramenta, mas como modo ampliado de presença no cuidado, capaz de conectar territórios, equipes e saberes especializados.
Telessaúde, atenção primária e redes de cuidado
No ensaio, a telessaúde é apresentada como um eixo estratégico para o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde. Ao possibilitar consultas especializadas remotas, segunda opinião formativa, teleconsultorias e tele-educação, as tecnologias digitais contribuem para ampliar a capacidade resolutiva das equipes que atuam nos territórios.
Além disso, o autor destaca o papel dos sistemas colaborativos e da interoperabilidade de dados como elementos centrais para a organização das redes de atenção à saúde. A circulação de informações clínicas, epidemiológicas e administrativas em tempo real permite uma gestão mais integrada do cuidado.
Nesse contexto, a telessaúde contribui para estruturar redes assistenciais conectadas, nas quais profissionais de diferentes níveis de atenção podem compartilhar conhecimento e tomar decisões de forma coletiva.
Desafios institucionais e pedagógicos
A consolidação da telessaúde também traz novos desafios institucionais. A expansão das tecnologias digitais exige padronização de sistemas, regulamentação adequada e mecanismos de governança capazes de articular os diferentes níveis federativos do SUS.
Outro ponto enfatizado pelo autor é a necessidade de uma nova pedagogia para a formação em saúde. O paradigma da metapresencialidade requer profissionais capazes de atuar em ambientes digitais, utilizar ferramentas de comunicação remota e trabalhar em equipes interprofissionais distribuídas em rede.
Nesse sentido, universidades e centros de pesquisa desempenham papel fundamental na produção de conhecimento, na validação científica das práticas de telessaúde e na formação de profissionais preparados para a transformação digital do sistema de saúde.
Telessaúde e equidade no acesso à saúde
Um dos aspectos mais relevantes do argumento desenvolvido por Almeida Filho é a relação entre tecnologia e justiça social. No contexto de um país marcado por profundas desigualdades regionais, a telessaúde pode atuar como instrumento de democratização do acesso ao cuidado especializado.
Ao permitir que profissionais e pacientes localizados em regiões remotas acessem conhecimentos e serviços disponíveis em centros mais estruturados, as tecnologias digitais contribuem para reduzir assimetrias históricas no acesso à saúde.
Dessa forma, a transformação digital do SUS não é apenas um processo tecnológico. Trata-se também de um projeto político voltado à promoção da equidade e à ampliação do direito à saúde.
A transformação digital como mudança epistemológica
A reflexão proposta por Almeida Filho aponta que a transformação digital do SUS representa uma mudança profunda na forma de compreender o cuidado em saúde. Não se trata apenas da incorporação de novos equipamentos ou plataformas, mas de uma mudança cultural, clínica e epistemológica.
A metapresencialidade surge, assim, como uma chave interpretativa para compreender o novo estágio da saúde pública brasileira. Nesse modelo, a presença clínica torna-se ampliada pelas redes digitais, permitindo um cuidado mais colaborativo, integrado e territorialmente orientado.
Ao registrar esse momento de consolidação da saúde digital no Brasil, o texto reafirma o papel estratégico do Estado e da academia na construção de um sistema de saúde público capaz de utilizar a tecnologia para fortalecer os princípios de universalidade, integralidade e equidade que estruturam o SUS.
ALMEIDA FILHO, Naomar de. Bases conceituais da telessaúde: metapresencialidade no cuidado em saúde. In: SANTOS, Alaneir de Fátima dos et al. (Orgs.). Telessaúde no SUS: avanços e desafios para o século XXI. Belo Horizonte: Faculdade de Medicina da UFMG, 2025. p. 7–24. Disponível em: https://abtms.org.br/wp-content/uploads/2025/10/telessaude_final.pdf. Acesso em: set. 2025.


