Telessaúde Brasil Redes: quando a experiência ganha escala no SUS

A história da telessaúde brasileira não se encerra na criação de experiências pioneiras nem na formação dos primeiros núcleos universitários. Há outro movimento que precisa ser compreendido. Como iniciativas desenvolvidas em diferentes lugares passaram a integrar uma política de alcance nacional e a fazer parte do cotidiano da Atenção Primária à Saúde?
Essa questão atravessa o texto “Programa Nacional Telessaúde Brasil Redes”, de Alexandre Medeiros de Figueiredo e Tâmara Albuquerque Leite Guedes, publicado em 2018 no livro A telessaúde no Brasil e a inovação tecnológica na atenção primária.
Escrito em um momento em que o programa já havia percorrido mais de uma década de desenvolvimento, o texto permite observar uma etapa diferente daquela dos primeiros anos da telessaúde brasileira. O problema já não era somente experimentar tecnologias a distância, mas organizar serviços, ampliar sua utilização e articulá-los às necessidades do Sistema Único de Saúde.
A Atenção Primária no centro da telessaúde
Uma característica fundamental do Programa Nacional Telessaúde Brasil Redes foi sua aproximação com a Atenção Primária à Saúde. Teleconsultoria, telediagnóstico e tele-educação passaram a compor um conjunto de possibilidades voltadas ao apoio dos profissionais que atuavam nos serviços. A distância entre uma equipe local e determinados conhecimentos especializados poderia, em algumas situações, ser reduzida pela circulação digital de informações e pelo contato remoto entre profissionais.
Isso modifica a maneira de compreender a telessaúde. Ela não aparece apenas como possibilidade de realizar atendimento a distância. Também passa a funcionar como estrutura de apoio ao trabalho realizado presencialmente nos territórios. Um profissional da Atenção Primária poderia discutir determinada situação com outro profissional localizado a centenas ou milhares de quilômetros. Um exame poderia ser realizado em um município e analisado em outro lugar. Atividades de formação poderiam alcançar trabalhadores sem exigir seu deslocamento para grandes centros. A tecnologia começava, portanto, a modificar também a circulação do conhecimento dentro do SUS.
Dos Núcleos à formação de uma rede
Nesse processo, os Núcleos de Telessaúde ocupam novamente uma posição importante.
Vinculados a universidades e outras instituições, os núcleos articulavam conhecimento especializado, formação profissional e oferta de serviços de telessaúde. Ao mesmo tempo, sua atuação dependia da relação com estados, municípios e equipes presentes nos territórios. É justamente essa articulação que ajuda a compreender a palavra “Redes” incorporada ao programa.
Não se tratava apenas de conectar computadores. Era necessário conectar instituições, profissionais, serviços e diferentes níveis de gestão. A expansão da telessaúde, portanto, não pode ser explicada somente pela disponibilidade de novas tecnologias. Ela dependia da capacidade de organizar essas relações e fazer com que os serviços digitais encontrassem lugar nos processos de trabalho da saúde.
Expandir não significa homogeneizar
A dimensão nacional do programa também coloca outro problema histórico. Uma política formulada nacionalmente encontra territórios profundamente diferentes. Conectividade, infraestrutura, disponibilidade de profissionais, capacidade de gestão e organização dos serviços não estavam distribuídas de maneira uniforme pelo país. Por isso, a expansão do programa não deve ser confundida com uma incorporação homogênea da telessaúde.
Essa diferença é fundamental. Implantar uma tecnologia não significa necessariamente incorporá-la ao cuidado. Entre a disponibilidade de uma ferramenta e sua utilização cotidiana existem profissionais, instituições, rotinas, infraestrutura e necessidades locais. A história da telessaúde também se constrói nesse intervalo.
Da experiência à institucionalização
O texto de Figueiredo e Guedes permite observar um momento em que aquilo que anteriormente aparecia em experiências universitárias e projetos específicos já havia adquirido maior escala institucional. Mas isso não significa que exista uma linha reta entre as primeiras experiências de telemedicina e a atual transformação digital do SUS. Historicamente, é mais produtivo investigar as conexões.
Os Núcleos de Telessaúde constituem um desses pontos de conexão entre universidade e serviço, entre conhecimento especializado e Atenção Primária, entre experiências locais e política nacional. É justamente por isso que sua trajetória merece ser reconstruída. Ao acompanharmos a passagem das experiências iniciais para o Programa Nacional Telessaúde Brasil Redes, percebemos que a história não é apenas a de tecnologias que se tornaram mais sofisticadas. É também a história de uma mudança de escala.
E essa mudança deixa uma pergunta importante para compreender a transformação digital da saúde brasileira: o que acontece com uma experiência quando ela deixa de ser local, passa a integrar uma política nacional e precisa funcionar em territórios profundamente diferentes entre si? Talvez seja nesse espaço entre experimentação, expansão e incorporação, que passamos a compreender uma parte importante da história da telessaúde no SUS.
FIGUEIREDO, Alexandre Medeiros de; GUEDES, Tâmara Albuquerque Leite. Programa Nacional Telessaúde Brasil Redes. In: HEKIS, Hélio Roberto (Org.). A telessaúde no Brasil e a inovação tecnológica na atenção primária. 2. ed. Natal: SEDIS-UFRN, 2018. p. 27-46. Disponível em: https://repositorio.ufrn.br/handle/123456789/64128.


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