O Suplício Corporativo: O Que Michel Foucault Nos Ensina Sobre o Assédio Moral na Gestão Contemporânea
- Adenilson Barcelos de Miranda
- 31 de mai.
- 3 min de leitura

Se você abrir as primeiras páginas de Vigiar e Punir (1975), de Michel Foucault, será confrontado com o relato gráfico do suplício de Damiens em 1757: o corpo martirizado, a carne rasgada e o desmembramento público. Foucault nos mostra que, no Antigo Regime, o corpo do suspeito era o palco onde o Estado extraía a "verdade" por meio da dor física, e a punição era um espetáculo político de soberania. O indivíduo era tratado como "semi-culpado" antes mesmo da sentença final, justificando o horror.
Para muitos, essa violência parece um fóssil de séculos passados. Mas se mudarmos o foco da dor física para o sofrimento psíquico, e do cadafalso medieval para as salas de reunião e canais de comunicação da administração contemporânea, perceberemos que a dinâmica do suplício permanece assustadoramente viva. No ambiente corporativo e administrativo atual, o "martírio" mudou de natureza: ele foi "psicologizado" e burocratizado.
Na justiça inquisitorial descrita por Foucault, o simples fato de alguém se tornar suspeito já acumulava um "grau de culpa", legitimando a tortura investigativa. No funcionalismo público ou na iniciativa privada contemporânea, vemos esse mecanismo se repetir quando um profissional cai em desgraça com a chefia imediata ou desafia uma cultura organizacional disfuncional. Antes que qualquer processo administrativo disciplinar (PAD) formal aconteça, ou que uma avaliação de desempenho justa seja feita, o trabalhador é isolado.
Gera-se, então, uma presunção de incompetência ou insubordinação. O profissional passa a ser vigiado com lupa, suas entregas são desqualificadas publicamente e ele é colocado no banco dos réus invisível da cultura organizacional. A suspeita opera como condenação prévia.
Foucault descreve a La Question (a tortura jurídica) como um procedimento regulamentado para quebrar a resistência do corpo do réu. Na gestão contemporânea, a tortura psicológica do assédio moral é a nova Question. Ela não deixa marcas na pele, mas desestrutura o psiquismo por meio de táticas refinadas como o esvaziamento de funções (o ócio forçado), onde se retiram as atribuições do profissional para que ele se sinta inútil perante os pares.
Outra estratégia comum é o estabelecimento de metas impossíveis e prazos inalcançáveis, desenhados especificamente para gerar o registro formal de um fracasso. A isso soma-se o isolamento comunicacional, que se dá ao deixar de responder e-mails, excluir o funcionário de reuniões estratégicas ou omiti-lo de grupos de trabalho onde sua presença seria natural. Assim como a tortura medieval buscava a confissão, esse martírio psicológico busca a "quebra" do indivíduo, induzindo-o ao pedido de demissão, ao afastamento médico por Burnout ou à total submissão.

A análise foucaultiana também mostra que a justiça do Rei perseguia o condenado para além da vida biológica, dispersando seus pedaços ou queimando suas cinzas para apagar sua memória e dignidade. Na administração burocrática, a demissão ou o desligamento do profissional frequentemente não encerram o ciclo de violência. Ocorre o que a sociologia e a psicologia do trabalho chamam de assassinato de reputação, a perseguição ao "cadáver corporativo".
Nessa etapa, espalham-se rumores nos corredores sobre a "instabilidade emocional" do profissional demitido, constroem-se narrativas oficiais que justificam o seu expurgo e queimam-se suas pontes no mercado por meio de referências profissionais negativas. O objetivo é pedagógico e soberano, exatamente como no Antigo Regime: serve para mostrar aos que ficaram o preço de desafiar o poder estabelecido.
Foucault conclui que a transição do suplício público para a prisão moderna ocorreu porque o Estado percebeu que a violência física gerava revolta e solidariedade nos espectadores. Era mais eficiente controlar o tempo, a mente e a alma do que destruir a carne. O assédio moral e a tortura psicológica na administração contemporânea refletem essa sofisticação do poder.
Trata-se de uma violência limpa, que não faz barulho, não gera sangue e cujas evidências são difíceis de rastrear em um tribunal. A empresa ou o órgão público mantém sua fachada de "gestão humanizada" e "foco em metas", enquanto os corpos de seus colaboradores adoecem silenciosamente sob o peso de estruturas profundamente autoritárias.
Reconhecer que os mecanismos de poder descritos por Foucault continuam operando em nossas dinâmicas de trabalho é o primeiro passo para tirarmos o véu de normalidade da violência corporativa. O ambiente de trabalho não pode ser um tribunal inquisitorial, e a gestão não pode ser exercida como uma vingança soberana.



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