Memória, Esquecimento e Silenciamento
- Adenilson Barcelos de Miranda
- há 5 dias
- 6 min de leitura

PUC Goiás
Professora: Dra. Fernanda de Paula Moi (M/D)
Linha de Pesquisa: Poder e Representações
Disciplina: História e Narrativa
Doutorando: Adenilson Barcelos de Miranda
Tema central: O que não é narrado?
Data: 19/06/2026
1. Objetivos da Apresentação
Compreender as relações entre memória, esquecimento e poder.
Discutir o conceito de subalternidade e suas implicações para a produção do conhecimento histórico.
Analisar criticamente narrativas oficiais e suas exclusões.
Refletir sobre quem fala, quem é ouvido e quem permanece ausente na construção da memória coletiva.
Contextualizar a Comissão Nacional da Verdade – Indígenas.
2. Problema Norteador
"Pode o subalterno falar?"
Ou estaria ele condenado a aparecer apenas como objeto da narrativa produzida por outros?
Essa questão, formulada por Gayatri Chakravorty Spivak, servirá como eixo articulador.
3. Introdução: Memória e Poder
Ao pensarmos a História, frequentemente perguntamos:
O que aconteceu?
Quem participou?
Quais documentos registraram os acontecimentos?
Entretanto, uma pergunta igualmente importante é:
O que ficou de fora da narrativa?
Toda memória é seletiva.
Lembrar implica escolher.
Da mesma forma, esquecer não é apenas uma falha da memória, mas muitas vezes um processo social, político e cultural.
Assim, a memória não constitui apenas um depósito de fatos do passado, mas um campo de disputas sobre quais acontecimentos, sujeitos e experiências merecem ser preservados.
4. Memória Coletiva
Conceito
A memória coletiva refere-se ao conjunto de lembranças compartilhadas por grupos sociais.
Ela não é individual, mas construída socialmente.
As sociedades produzem:
monumentos;
datas comemorativas;
museus;
arquivos;
livros didáticos;
narrativas nacionais.
Esses elementos ajudam a definir aquilo que deve ser lembrado.
Questão para reflexão
Se a memória é construída socialmente, quem decide o que será lembrado?
1. O "Descobrimento" do Brasil.
2. Tiradentes como o "Cristo da Independência".
3. Dom Pedro I e o Grito do Ipiranga.
4. Brasília como cidade sem passado.
Existe uma memória recorrente de que Brasília surgiu "do nada" em 1960. Entretanto, o Planalto Central possuía longa história de ocupação por povos indígenas, quilombolas, sertanejos, garimpeiros e criadores de gado. A narrativa da "terra vazia" foi importante para legitimar a interiorização da capital, mas não corresponde à complexidade histórica da região.
5. A Princesa Isabel como única responsável pela abolição.
A memória escolar frequentemente apresenta Princesa Isabel como a "redentora dos escravos". A historiografia contemporânea demonstra que a abolição resultou de décadas de resistência negra, fugas, quilombos, revoltas, atuação de intelectuais abolicionistas e transformações econômicas e políticas. A assinatura da Lei Áurea foi apenas o ato final de um processo muito mais amplo.
6. O mito da democracia racial.
7. Os bandeirantes como heróis civilizadores.
Os bandeirantes foram celebrados como desbravadores que expandiram o território nacional.
5. Paul Ricoeur: Memória, História e Esquecimento
Paul Ricoeur argumenta que memória e esquecimento são processos inseparáveis.
Em sua obra A Memória, a História e o Esquecimento (2007), demonstra que:
lembrar é selecionar;
toda narrativa histórica implica exclusões;
o esquecimento pode ser involuntário ou produzido socialmente.
Três dimensões importantes
a) Memória
Relacionada às experiências vividas e às formas de recordação.
b) História
Busca reconstruir criticamente o passado mediante evidências e interpretação.
c) Esquecimento
Não representa apenas ausência de memória.
Pode constituir uma estratégia política.
6. O Esquecimento Político
Conceito
O esquecimento político ocorre quando determinados acontecimentos, grupos ou experiências são removidos da memória pública.
Não se trata de simples ausência documental.
Trata-se de um processo ativo de silenciamento.
Exemplos históricos
Escravidão e suas violências.
Massacres indígenas.
Perseguições políticas.
Ditaduras militares latino-americanas.
Violências contra populações tradicionais.
Pergunta
O que acontece quando um Estado decide esquecer?
7. Silenciamento e Produção da História
Nem todos os sujeitos possuem as mesmas condições para registrar sua própria experiência.
Muitas vezes a documentação histórica é produzida por:
governos;
militares;
missionários;
administradores;
elites econômicas.
Consequentemente, grupos subalternizados aparecem apenas por intermédio do olhar de outros.
8. Subalternidade
O que significa ser subalterno?
O conceito foi desenvolvido inicialmente por Antonio Gramsci (1891-1937) e posteriormente ampliado na década de 1980, por um grupo de historiadores indianos que retomou Gramsci para analisar a história da Índia colonial - Estudos Subalternos.
Refere-se a grupos que ocupam posições de marginalização política, econômica e cultural.
Exemplos:
povos indígenas;
comunidades quilombolas;
camponeses;
mulheres;
populações negras;
trabalhadores rurais;
moradores de rua.
Esses grupos frequentemente têm pouca influência sobre as narrativas oficiais.
9. Gayatri Spivak e a Questão da Voz
Texto central
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o Subalterno Falar?
A autora indiana questiona se os grupos subalternizados conseguem efetivamente falar dentro das estruturas de poder existentes.
Sua resposta é provocativa.
O problema não está apenas na possibilidade de falar.
O problema está na possibilidade de ser ouvido.
Argumento central
Mesmo quando fala, o subalterno frequentemente:
é reinterpretado;
é traduzido;
é apropriado;
é representado por outros.
Assim, sua voz chega mediada pelas instituições de poder.
Reflexão crítica
O subalterno fala?
Ou apenas aparece narrado por outros?
10. Estudo de Caso: Ditaduras Latino-Americanas
Contexto
Diversos países latino-americanos viveram regimes autoritários durante o século XX:
Brasil (1964–1985);
Argentina (1976–1983);
Chile (1973–1990);
Uruguai (1973–1985).
Questão da memória
Após a redemocratização surgiram disputas sobre:
quem foram as vítimas;
quem foram os responsáveis;
quais fatos deveriam ser lembrados.
Narrativas em disputa
Narrativa oficial
Enfatiza segurança nacional, estabilidade política ou desenvolvimento econômico.
Narrativas das vítimas
Destacam:
torturas;
desaparecimentos;
exílios;
perseguições políticas.
Pergunta
Quem controla a memória da ditadura?
11. Aplicação ao Contexto Brasileiro
Podemos ampliar a discussão para outras experiências:
povos indígenas expulsos de seus territórios;
comunidades quilombolas;
populações atingidas por grandes obras;
trabalhadores rurais;
moradores de rua;
usuários de drogas em situação de vulnerabilidade.
Em cada caso, devemos perguntar:
Quem produz a narrativa?
Quem aparece como protagonista?
Quem permanece invisível?
12. A Comissão Nacional da Verdade e a emergência da fala indígena
Questão central
Durante décadas, a memória oficial sobre a ditadura militar brasileira (1964–1985) concentrou-se principalmente nas perseguições a estudantes, sindicalistas, intelectuais, religiosos e militantes políticos urbanos. Nesse processo, inúmeras violências cometidas contra povos indígenas permaneceram invisibilizadas ou foram tratadas como efeitos colaterais do desenvolvimento nacional.
A criação da Comissão Nacional da Verdade, em 2011, representou uma mudança significativa nesse quadro ao reconhecer que os povos indígenas também foram vítimas da violência de Estado.
12.1. O silêncio sobre os indígenas durante a ditadura
Durante o regime militar, grandes projetos de infraestrutura foram implantados em diversas regiões do país:
Rodovia Transamazônica;
BR-174;
Perimetral Norte;
Usina de Tucuruí;
Projetos de mineração;
Expansão agropecuária na Amazônia e no Cerrado.
Esses empreendimentos frequentemente resultaram em:
expulsão de comunidades indígenas;
deslocamentos forçados;
disseminação de doenças;
massacres;
destruição de territórios tradicionais.
Apesar disso, essas experiências permaneceram quase ausentes da memória pública nacional.
Aqui aparece aquilo que Paul Ricoeur chama de esquecimento organizado: não um simples lapso da memória, mas um processo social e político de seleção do que deve ser lembrado e do que deve permanecer oculto.
12.2. A CNV como espaço de escuta
A Comissão Nacional da Verdade inovou ao realizar:
audiências públicas;
escutas territoriais;
coleta de testemunhos indígenas;
análise de documentos produzidos pelo Estado.
Pela primeira vez, muitos indígenas foram convidados não apenas a figurar como objeto de investigação, mas a narrar suas próprias experiências.
Esse movimento possui grande relevância teórica porque desloca a produção da memória:
Antes:
o Estado falava sobre os indígenas.
Depois:
os indígenas passaram a falar sobre o Estado.
Movimentos indigenistas / Movimentos indígenas.
12.3. A questão de Spivak: o subalterno pode falar?
Nesse momento a reflexão de Gayatri Chakravorty Spivak torna-se particularmente útil.
Em seu ensaio clássico Pode o Subalterno Falar?, Spivak argumenta que grupos historicamente subordinados muitas vezes têm sua voz mediada por instituições que falam em seu nome.
A questão não é apenas:
"o subalterno possui voz?"
Mas:
"existem condições para que sua fala seja reconhecida como legítima?"
Nesse sentido, a CNV pode ser compreendida como uma tentativa institucional de criar um espaço de escuta.
Contudo, permanece uma questão crítica:
os indígenas falaram por si?
ou suas narrativas continuaram sendo traduzidas pelos mecanismos do Estado?
12.4. O Relatório Final da CNV
O Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, publicado em 2014, estimou que milhares de indígenas foram afetados pelas políticas do regime militar.
O documento reconheceu:
remoções forçadas;
confinamentos;
mortes por epidemias associadas à ação estatal;
destruição territorial;
violações sistemáticas de direitos.
Pela primeira vez em um documento oficial brasileiro, os povos indígenas apareceram explicitamente como vítimas da ditadura.
Trata-se de um marco na disputa pela memória nacional.

Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do SPI, instalada em 1963 e retomada em 1967, cujos desdobramentos levaram à extinção do Serviço de Proteção aos Índios e à criação da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (à época denominada Fundação Nacional do Índio).
12.5. Memória, reconhecimento e justiça
A experiência da CNV permite compreender que memória não é apenas recordação do passado.
Memória é também:
reconhecimento;
reparação;
disputa política;
produção de cidadania.
Quando grupos historicamente silenciados passam a narrar suas próprias experiências, ocorre uma transformação importante: aqueles que eram apenas objetos da história tornam-se sujeitos da história.
Questão final para debate:
Se a memória oficial durante décadas silenciou os povos indígenas, a Comissão Nacional da Verdade conseguiu transformá-los em sujeitos de fala ou apenas incorporou suas narrativas a uma nova versão da história produzida pelo Estado?
Ou, retomando Spivak:
O subalterno finalmente falou, ou continuamos ouvindo uma fala mediada pelas instituições que historicamente o silenciaram?
Referências:
RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
Disponível em: https://perspectivasqueeremdebate.files.wordpress.com/2013/10/spivak-pode-o-subalterno-falar.pdf
BRASIL. Ministério do Interior. Relatório Figueiredo: processo n.º 4.483/1968. Coordenado por Jader de Figueiredo Correia. Brasília, DF: Ministério do Interior, 1968. Disponível no acervo da Comissão Nacional da Verdade. Disponível em: https://cnv.memoriasreveladas.gov.br/
BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório Final. v. 2. Brasília, DF: CNV, 2014. Capítulo: Violações de direitos humanos dos povos indígenas. Disponível em: https://cnv.memoriasreveladas.gov.br/



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