Presença Ampliada por Tecnologia: NTS UFMA
- Adenilson Barcelos de Miranda
- há 2 dias
- 4 min de leitura
Atualizado: há 2 dias

A Telessaúde no Brasil acaba de dar mais um passo importante, e não é apenas tecnológico, é conceitual. Uma ação recente do Núcleo de Telessaúde da UFMA, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, mostra com clareza uma mudança que merece atenção: não é mais o paciente que precisa ir até o serviço de saúde, é o cuidado que vai até ele.
No bairro Morada do Sol, equipes de saúde passaram a realizar exames de teleretinografia diretamente na casa de pacientes diabéticos acamados. Trata-se de um público que, historicamente, enfrenta enormes barreiras de acesso: dificuldades de locomoção, dependência de terceiros e, muitas vezes, abandono assistencial silencioso.
Nesse contexto, a iniciativa não é apenas inovadora, é transformadora. Durante muito tempo, mesmo com o avanço da Telessaúde, o modelo predominante manteve uma lógica tradicional: o paciente se desloca até a unidade, e a tecnologia atua nos bastidores, conectando profissionais e serviços.
A inovação agora apresentada rompe com essa estrutura. Ao levar equipamentos, conectividade e equipe até o domicílio, o sistema de saúde deixa de ser um ponto fixo e passa a se tornar uma rede móvel, territorializada e sensível às condições reais de vida das pessoas.
Essa mudança tem implicações profundas. Em primeiro lugar, reposiciona a Telessaúde como uma ferramenta de equidade. Ao priorizar pacientes mais vulneráveis, como os acamados, o sistema reconhece que tratar todos de forma igual não é suficiente; é preciso tratar de forma justa.
Em segundo lugar, fortalece a Atenção Primária à Saúde, que passa a coordenar um cuidado mais próximo, contínuo e integrado ao território.
Talvez o aspecto mais relevante seja simbólico. Estamos diante de uma inversão de lógica. Se antes o acesso à saúde dependia da capacidade do indivíduo de chegar ao serviço, agora passa a depender da capacidade do sistema de chegar até o indivíduo. Isso redefine o próprio sentido de acesso.
No caso da teleretinografia, essa estratégia é ainda mais significativa. A retinopatia diabética é uma das principais causas de cegueira evitável no mundo. O diagnóstico precoce pode impedir a progressão da doença, mas isso só é possível quando o exame chega a quem precisa, e não o contrário.
Essa experiência aponta para um futuro em que a Telessaúde não será apenas “tele”, no sentido de distância, mas presença ampliada por tecnologia. Um modelo em que o cuidado circula, se adapta e se enraíza no território. Mais do que inovação tecnológica, o que está em curso é uma mudança de mentalidade. E talvez seja esse o verdadeiro avanço: um SUS que não espera, um SUS que vai ao encontro.

Essa ideia de presença ampliada por tecnologia ajuda a compreender que a transformação em curso não se limita ao uso de tecnologias digitais, mas envolve uma redefinição do próprio “estar presente” no cuidado em saúde.
Tradicionalmente, presença significava copresença física, ou seja, profissional e paciente no mesmo espaço, no mesmo tempo. A Telessaúde, em sua fase inicial, rompeu parcialmente essa lógica ao permitir que especialistas estivessem “presentes” à distância, por meio de laudos, teleconsultorias e teleinterconsultas. No entanto, essa presença ainda era, em grande medida, reativa e mediada por estruturas fixas, dependente de que o paciente chegasse até algum ponto da rede.
O que experiências como a do Núcleo de Telessaúde da UFMA revelam é um salto qualitativo, pois, a presença deixa de ser apenas remota e passa a ser expandida, híbrida e territorializada. Expandida porque combina diferentes camadas de atuação quando o agente comunitário, o enfermeiro, o equipamento portátil, o especialista remoto, todos articulados em um mesmo ato de cuidado. Híbrida porque mistura o físico e o digital de forma indissociável. E territorializada porque se ancora no lugar onde a vida acontece: no domicílio, a comunidade, o cotidiano do paciente.
Nesse novo arranjo, a tecnologia não substitui o encontro, ela o potencializa. Um exame realizado na casa do paciente não é apenas um procedimento técnico; é também um momento de escuta, de vínculo, de reconhecimento das condições sociais e ambientais que atravessam o processo saúde-doença. Ao mesmo tempo, essa ação local está conectada a uma rede mais ampla de saberes, capaz de qualificar decisões clínicas em tempo oportuno.
Essa perspectiva também desloca o papel da infraestrutura. Em vez de concentrar capacidades em grandes unidades, o sistema passa a operar como uma rede distribuída de cuidado, na qual a inteligência clínica pode ser acessada de qualquer ponto do território. Isso aproxima a Telessaúde de modelos contemporâneos de inovação, nos quais o valor não está apenas no centro, mas na capacidade de conexão entre as pontas.
Outro aspecto fundamental é o impacto sobre o tempo do cuidado. A presença ampliada por tecnologia reduz intervalos, antecipa diagnósticos e evita agravamentos. No caso da retinopatia diabética, isso pode significar a diferença entre preservar ou perder a visão. Mas, para além de resultados clínicos, há um ganho civilizatório; o reconhecimento de que o cuidado deve se ajustar às condições concretas de existência das pessoas.
Por fim, essa abordagem dialoga diretamente com a ideia de um SUS orientado pela equidade e pela integralidade. Ao ampliar a presença, o sistema não apenas chega mais longe, ele chega melhor. Mais sensível, mais responsivo, mais comprometido com a realidade dos sujeitos.
Em outras palavras, não se trata apenas de conectar pontos distantes, mas de reconfigurar o próprio mapa do cuidado. Um mapa em que as fronteiras entre presencial e remoto se dissolvem, dando lugar a uma presença contínua, inteligente e profundamente humana, mesmo que mediada por tecnologia.
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