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A Luz de Maria Clara

  • Foto do escritor: Adenilson Barcelos de Miranda
    Adenilson Barcelos de Miranda
  • 13 de jun.
  • 3 min de leitura

O Programa Governo do Brasil na Rua levou serviços públicos a São Luís. Eu estava ali para acompanhar as atividades. Entre tantas pessoas que passaram por aquele espaço, uma permaneceu comigo.

Não me lembro de seu nome. Era um nome composto, talvez Maria Clara. Chamarei assim a mulher cuja história, por alguma razão, se recusou a me abandonar.

Conheci Maria Clara numa manhã do dia 11 de junho. Havia em sua voz algo raro: a serenidade daqueles que atravessaram grandes tempestades e já não precisam convencer ninguém de que sobreviveram. Sua pela negra nas roupas coloridas, parou ao meu lado e começou a falar. Não parecia contar uma história; parecia abrir uma janela.

Disse-me que, até os seis anos de idade, fora cega. Vivia envolta numa noite sem estrelas, numa escuridão que para a maioria de nós é impossível imaginar. Um dia, uma senhora aconselhou sua mãe sobre alguns cuidados e procedimentos. Me explicou os detalhes. Maria Clara viu. Viu a luz. Viu os contornos do mundo. Viu o rosto da sua mãe, das pessoas. E, talvez sem perceber, naquele instante começou também a enxergar aquilo que os olhos nem sempre alcançam. Falou então da mãe.

Havia dores antigas naquela casa. Mágoas que não pertenciam à criança, mas que haviam encontrado nela um lugar para repousar. Maria Clara cresceu sentindo o peso de rejeições que jamais compreendeu inteiramente. Algumas feridas, contou-me, não estavam apenas na alma; pareciam inscritas na própria pele. Durante anos carregou sofrimentos herdados e sofrimentos adquiridos, como quem transporta uma cruz cuja origem desconhece. Tinha ela a pele coberta por feridas e hematomas.

Então veio a adolescência. Quando completou quinze anos, usou uma expressão que jamais esquecerei. Disse que "explodiu em flor". Sorriu ao pronunciar essas palavras. A menina marcada pela dor tornou-se uma jovem de rara beleza. Pessoas passaram a observá-la. Alguns reconheciam nela um milagre. Outros viam apenas a beleza exterior. Mas Maria Clara aprendera cedo demais a distinguir os olhares. Sabia que existem olhos que enxergam e permanecem cegos. Sabia que existem pessoas que contemplam a luz sem jamais compreendê-la.

A vida seguiu seu curso. Ela cresceu, trabalhou, construiu sua história. Mais tarde, adoeceu. Foi então que começou uma nova travessia. Enquanto falava, percebi que não descrevia uma doença, mas uma peregrinação interior. Disse que precisou aprender a cuidar dos pensamentos que conversavam com seus sentimentos. Precisou enfrentar vozes antigas, rejeições antigas, medos antigos. Precisou reconciliar-se consigo mesma. Falou do sol. Falou da fé. Falou de Deus.

Não como quem repete fórmulas prontas, mas como quem encontrou abrigo depois de caminhar por muito tempo em meio ao deserto. Por diversas vezes repetiu que tinha tudo para não dar certo. Mas deu. Não porque a vida tenha sido generosa. Não porque os sofrimentos tenham sido pequenos. Deu certo porque ela decidiu construir-se todos os dias. Pedra sobre pedra. Amanhecer após amanhecer. Como quem recebe cada nascer do sol como uma oportunidade de recomeçar e cada entardecer como uma ocasião para agradecer.

Ao final da conversa, compreendi que Maria Clara carregava uma espécie de luz silenciosa. Não a luz dos que nunca sofreram, mas a dos que atravessaram a escuridão e retornaram com algo precioso nas mãos. Existem pessoas que iluminam os lugares por onde passam. Maria Clara fazia algo ainda mais raro. Ela nos ensinava a enxergar no escuro.

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