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Da Amazônia aos Andes: o Brasil apresenta os caminhos da Telessaúde em congresso internacional na Bolívia

Foto do escritor: Adenilson Barcelos de Miranda
Adenilson Barcelos de Miranda
12 de out.
5 min de leitura

Realizado em Cochabamba, o VI Congresso Científico Internacional de Telessaúde reuniu experiências sobre inovação, tecnologias digitais e acesso à saúde. A participação brasileira trouxe ao debate os desafios territoriais do SUS e os resultados da expansão dos serviços de Telessaúde.

Entre a Cordilheira dos Andes e a imensidão amazônica, há territórios separados por montanhas, rios e longas distâncias. São geografias distintas, mas que compartilham o desafio de fazer com que o cuidado em saúde chegue às populações que vivem longe dos grandes centros urbanos. Foi em torno dessa preocupação que a cidade boliviana de Cochabamba recebeu, entre os dias 7 e 9 de outubro de 2026, o VI Congresso Científico Internacional de Telessaúde, sob o tema “Ciência, Inovação e Futuro”.

Promovido no âmbito do Ministério da Saúde e Esportes da Bolívia, o encontro reuniu profissionais e especialistas para discutir experiências de Telessaúde, pesquisa científica e inovação tecnológica. Durante a abertura, o coordenador do Programa Nacional de Telessaúde boliviano, Richard Asturizaga, ressaltou a implementação de equipamentos digitais com inteligência artificial nos 342 municípios do país, como parte de uma estratégia voltada à ampliação do acesso à atenção especializada no primeiro nível de atenção.

A experiência boliviana, iniciada em Cochabamba em 2018, oferece um ponto de aproximação com a trajetória brasileira. Em ambos os países, a incorporação das tecnologias digitais aos serviços de saúde precisa responder às condições concretas dos territórios, às desigualdades na distribuição de profissionais e às dificuldades enfrentadas por populações distantes dos centros especializados.


O Brasil e os desafios de um território continental


No dia 9 de outubro, durante a sessão dedicada ao tema “Evidência Local, Impacto Territorial e Desafios Futuros”, o Brasil participou do congresso com a apresentação “Programa Salud Digital en Brasil: hitos e impactos de la telesalud en el territorio”, conduzida por Adélia Delfina da Motta Silva, coordenadora-geral de Telessaúde do Departamento de Saúde Digital e Inovação (DESD), vinculado à Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI) do Ministério da Saúde.

A apresentação partiu de uma questão que acompanha a história da saúde pública brasileira. Como assegurar acesso à atenção especializada em um país de dimensões continentais, onde profissionais e serviços de saúde estão distribuídos de maneira desigual?

A concentração de especialistas nas capitais e nos grandes centros urbanos, associada às dificuldades de deslocamento de populações indígenas, ribeirinhas e residentes em áreas remotas, constitui parte desse desafio. Em determinados territórios, chegar a uma unidade de saúde exige percorrer rios, enfrentar longas viagens terrestres ou depender de condições climáticas favoráveis.

É nesse contexto que a Telessaúde ganha relevância. Sua contribuição ultrapassa a realização de consultas por videoconferência. No Sistema Único de Saúde (SUS), ela integra estratégias de apoio às Redes de Atenção à Saúde, aproximando profissionais, compartilhando conhecimentos clínicos e oferecendo alternativas para qualificar o cuidado nos próprios territórios.


A exposição brasileira também recuperou a trajetória institucional da Telessaúde, desde a criação do Programa Telessaúde Brasil, em 2007, passando pela ampliação das práticas remotas durante a pandemia de Covid-19, até a regulamentação estabelecida pela Lei nº 14.510, de 2022, e a instituição do Programa SUS Digital, em 2024.

Essa trajetória permite compreender que a transformação digital do SUS possui uma história anterior à popularização recente das plataformas digitais e da inteligência artificial.

Ela foi construída por instituições públicas, universidades, Núcleos de Telessaúde, gestores e profissionais que desenvolveram experiências de atendimento, formação e apoio clínico ao longo de diferentes momentos da política de saúde brasileira.



Uma rede que conecta profissionais, serviços e territórios

Um dos aspectos apresentados no congresso foi a organização da Rede Brasileira de Telessaúde. Segundo os dados expostos pelo Ministério da Saúde, o Brasil contava, em 2026, com 63 Núcleos de Telessaúde, distribuídos pelas cinco regiões do país.

A rede reúne instituições que desenvolvem diferentes modalidades de serviços, incluindo teleconsultoria, teleconsulta, teleinterconsulta, telediagnóstico, telemonitoramento, teleducação e telerregulação.

Entre essas iniciativas, a Oferta Nacional de Telediagnóstico ocupa lugar importante na ampliação do acesso a exames especializados. Os dados preliminares apresentados no congresso registraram aproximadamente 3,5 milhões de telediagnósticos no período de janeiro de 2025 a junho de 2026, considerando as modalidades de tele-eletrocardiografia, teledermatoscopia e telerretinografia.

A apresentação também informou a realização de mais de 3 milhões de atendimentos por serviços de Telessaúde vinculados à rede brasileira, excluídos os telediagnósticos, no período analisado até junho de 2026.

Esses números ajudam a dimensionar a expansão dos serviços, embora o volume de atendimentos, isoladamente, não permita avaliar seus efeitos sobre a resolutividade assistencial, a redução das desigualdades ou a continuidade do cuidado. Para isso, é necessário observar onde os serviços chegam, quais populações são atendidas e como suas ofertas se articulam às redes locais de saúde.


Quando a distância entra na história do cuidado

Uma das imagens mais expressivas da apresentação brasileira retratou uma equipe em deslocamento fluvial, junto a uma embarcação, em um território amazônico. A fotografia introduz uma dimensão que os indicadores quantitativos nem sempre conseguem revelar. Em regiões onde o rio constitui o principal caminho entre comunidades e serviços públicos, o tempo de deslocamento interfere diretamente nas possibilidades de acesso à saúde.



A apresentação brasileira encerrou sua exposição com uma fotografia de deslocamento fluvial, associando a transformação digital às condições territoriais de acesso ao SUS. É precisamente nesses espaços que a Telessaúde pode assumir diferentes significados. Um eletrocardiograma realizado em uma unidade básica e analisado remotamente, uma teleinterconsulta que permite discutir um caso com um especialista ou uma teleconsultoria que apoia a decisão de um profissional podem evitar deslocamentos desnecessários e contribuir para a continuidade do cuidado.

Entretanto, a existência da tecnologia não elimina automaticamente as desigualdades territoriais. Sua implantação depende de conectividade, equipamentos adequados, profissionais capacitados, financiamento e organização dos fluxos assistenciais.

A apresentação brasileira reconheceu esses desafios ao abordar a necessidade de infraestrutura, interoperabilidade entre sistemas, segurança dos dados e qualificação dos profissionais de saúde.

A questão, portanto, não se limita à capacidade de conectar dois pontos por meio de uma rede digital. Trata-se de compreender em que condições essa conexão pode se transformar em acesso efetivo a um serviço de saúde.


A cooperação internacional e o futuro da Telessaúde

A participação brasileira no congresso de Cochabamba integra um movimento de intercâmbio de experiências entre países que procuram incorporar tecnologias digitais aos seus sistemas de saúde. Brasil e Bolívia possuem trajetórias institucionais próprias, mas enfrentam problemas que permitem aproximações, especialmente no atendimento a populações rurais, indígenas e residentes em regiões de difícil acesso.

O diálogo internacional oferece oportunidades para examinar experiências, discutir modelos de organização dos serviços e compartilhar conhecimentos sobre políticas públicas de Telessaúde. Também permite reconhecer que soluções tecnológicas precisam ser adaptadas às condições sociais, institucionais e territoriais de cada país.

O futuro da Telessaúde certamente envolverá novas ferramentas digitais, sistemas interoperáveis e aplicações de inteligência artificial. Contudo, seu alcance social dependerá das escolhas públicas que orientarem a utilização dessas tecnologias. Em Cochabamba, o Brasil apresentou resultados de uma trajetória construída no interior do SUS, marcada por experiências locais que, ao longo do tempo, passaram a integrar políticas nacionais.

Ao final, permanece uma questão que ultrapassa as fronteiras entre os dois países: de que maneira os avanços tecnológicos podem contribuir para que o lugar onde uma pessoa vive deixe de determinar as suas possibilidades de receber cuidado especializado?

Talvez seja essa uma das perguntas mais importantes para o futuro da Saúde Digital na América Latina. Afinal, entre a Amazônia e os Andes, a geografia continuará impondo distâncias. O desafio das políticas públicas é impedir que elas se convertam, inevitavelmente, em ausência de cuidado.


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