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Yoshitaka Amano à mesa com Van Gogh

  • Foto do escritor: Adenilson Barcelos de Miranda
    Adenilson Barcelos de Miranda
  • 26 de jul.
  • 3 min de leitura

Há quadros que se olham. Outros nos olham de volta. Foi essa a sensação quando, diante da gravura de Yoshitaka Amano, na exposição em Brasília (DF), lembrei-me inesperadamente de Os Comedores de Batata, de Vincent van Gogh.

Os comedores de btata (1885). Óleo sobre tela. Vincent van Gogh.
Os comedores de btata (1885). Óleo sobre tela. Vincent van Gogh.

À primeira vista, a aproximação parece improvável. De um lado, o mestre japonês da fantasia, das criaturas aladas, dos mundos suspensos entre o sonho e a memória. De outro, o pintor holandês dos camponeses, da terra, das mãos calejadas e da luz escassa. Mas bastou permanecer alguns minutos diante da gravura para perceber que ambos conversavam na mesma língua: a das sombras.

Van Gogh pintou uma família reunida em torno de uma mesa pobre. Não há heroísmo, nem beleza idealizada. Apenas pessoas dividindo batatas sob a luz vacilante de uma lamparina. A claridade não elimina a escuridão; apenas a torna visível. As sombras ocupam quase toda a tela, e é justamente por isso que a pequena chama adquire sentido. A luz existe porque a noite a envolve.

Final Fantasy X . Recordações à Beira da Fogueira (2001). Litografia sobre papel. Yoshitaka Amano.
Final Fantasy X . Recordações à Beira da Fogueira (2001). Litografia sobre papel. Yoshitaka Amano.

Na gravura de Amano acontece algo semelhante, embora por outro caminho. Não há a mesa de madeira nem os rostos marcados pela fadiga. Em seu lugar surgem personagens indefinidos, figuras humanas, seres fantásticos e uma floresta desenhada por milhares de linhas que parecem crescer como raízes ou nervuras. Ainda assim, a composição também organiza seus personagens em torno de um centro luminoso.

É como se todos compartilhassem um mesmo espaço de encontro, não para repartir alimento, mas para dividir histórias.

A diferença está na matéria da sombra. Em Van Gogh, ela nasce da tinta espessa, carregada de ocres, verdes e negros. Em Amano, nasce da linha. Cada traço acrescenta um pouco de noite ao papel. Milhares deles formam uma penumbra delicada, onde as figuras aparecem e desaparecem, como lembranças que insistem em permanecer. Ambos parecem compreender que a sombra não é ausência de luz. É sua condição.

Talvez por isso os dois artistas construam suas composições de maneira tão semelhante. O olhar do observador é conduzido para um núcleo central, enquanto os personagens se distribuem ao redor, formando quase um círculo. Não é uma organização geométrica; é humana. A reunião importa mais do que cada indivíduo. Em Van Gogh, a mesa une uma família. Em Amano, o círculo reúne uma comunidade imaginária, feita de homens, espíritos e animais que parecem compartilhar um mesmo destino.

Também há algo de profundamente silencioso nas duas obras. Ninguém parece falar. Em Os Comedores de Batata, o silêncio é o do trabalho exausto, interrompido apenas pela refeição. Na gravura de Amano, é o silêncio da contemplação, como se todos aguardassem o início de uma narrativa antiga. Em ambos os casos, o espectador torna-se um convidado tardio, alguém que chega depois que a cena já começou.

Ao deixar a exposição no CCBB de Brasília, pensei que talvez a distância entre um pintor holandês do século XIX e um ilustrador japonês do século XXI seja menor do que parece. Ambos desenham comunidades reunidas diante de um centro luminoso. Ambos compreendem que nenhuma luz existe sozinha. Ambos transformam o escuro em linguagem.

Talvez seja essa a função da arte: não expulsar as sombras, mas ensinar-nos a habitá-las. Afinal, tanto a humilde mesa dos camponeses de Van Gogh quanto a floresta fantástica de Yoshitaka Amano revelam a mesma verdade silenciosa, em algo mais antigo, quase ancestral: o impulso humano de reunir-se em torno da luz, a persistência desse gesto primordial de fazer comunidade em torno da luz.

 
 
 

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