Yoshitaka Amano à mesa com Van Gogh
- Adenilson Barcelos de Miranda
- 26 de jul.
- 3 min de leitura
Há quadros que se olham. Outros nos olham de volta. Foi essa a sensação quando, diante da gravura de Yoshitaka Amano, na exposição em Brasília (DF), lembrei-me inesperadamente de Os Comedores de Batata, de Vincent van Gogh.

À primeira vista, a aproximação parece improvável. De um lado, o mestre japonês da fantasia, das criaturas aladas, dos mundos suspensos entre o sonho e a memória. De outro, o pintor holandês dos camponeses, da terra, das mãos calejadas e da luz escassa. Mas bastou permanecer alguns minutos diante da gravura para perceber que ambos conversavam na mesma língua: a das sombras.
Van Gogh pintou uma família reunida em torno de uma mesa pobre. Não há heroísmo, nem beleza idealizada. Apenas pessoas dividindo batatas sob a luz vacilante de uma lamparina. A claridade não elimina a escuridão; apenas a torna visível. As sombras ocupam quase toda a tela, e é justamente por isso que a pequena chama adquire sentido. A luz existe porque a noite a envolve.

Na gravura de Amano acontece algo semelhante, embora por outro caminho. Não há a mesa de madeira nem os rostos marcados pela fadiga. Em seu lugar surgem personagens indefinidos, figuras humanas, seres fantásticos e uma floresta desenhada por milhares de linhas que parecem crescer como raízes ou nervuras. Ainda assim, a composição também organiza seus personagens em torno de um centro luminoso.
É como se todos compartilhassem um mesmo espaço de encontro, não para repartir alimento, mas para dividir histórias.
A diferença está na matéria da sombra. Em Van Gogh, ela nasce da tinta espessa, carregada de ocres, verdes e negros. Em Amano, nasce da linha. Cada traço acrescenta um pouco de noite ao papel. Milhares deles formam uma penumbra delicada, onde as figuras aparecem e desaparecem, como lembranças que insistem em permanecer. Ambos parecem compreender que a sombra não é ausência de luz. É sua condição.
Talvez por isso os dois artistas construam suas composições de maneira tão semelhante. O olhar do observador é conduzido para um núcleo central, enquanto os personagens se distribuem ao redor, formando quase um círculo. Não é uma organização geométrica; é humana. A reunião importa mais do que cada indivíduo. Em Van Gogh, a mesa une uma família. Em Amano, o círculo reúne uma comunidade imaginária, feita de homens, espíritos e animais que parecem compartilhar um mesmo destino.
Também há algo de profundamente silencioso nas duas obras. Ninguém parece falar. Em Os Comedores de Batata, o silêncio é o do trabalho exausto, interrompido apenas pela refeição. Na gravura de Amano, é o silêncio da contemplação, como se todos aguardassem o início de uma narrativa antiga. Em ambos os casos, o espectador torna-se um convidado tardio, alguém que chega depois que a cena já começou.
Ao deixar a exposição no CCBB de Brasília, pensei que talvez a distância entre um pintor holandês do século XIX e um ilustrador japonês do século XXI seja menor do que parece. Ambos desenham comunidades reunidas diante de um centro luminoso. Ambos compreendem que nenhuma luz existe sozinha. Ambos transformam o escuro em linguagem.
Talvez seja essa a função da arte: não expulsar as sombras, mas ensinar-nos a habitá-las. Afinal, tanto a humilde mesa dos camponeses de Van Gogh quanto a floresta fantástica de Yoshitaka Amano revelam a mesma verdade silenciosa, em algo mais antigo, quase ancestral: o impulso humano de reunir-se em torno da luz, a persistência desse gesto primordial de fazer comunidade em torno da luz.



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